Um cronógrafo é um segundo relógio dentro do relógio: um trem de engrenagens que se liga e desliga do primeiro com um botão. As quatro perguntas desta página são as que todo cronógrafo precisa responder: quem comanda o liga e desliga, como acoplar um ponteiro sem parar o relógio, como somar minutos com um salto por volta, e como fazer tudo voltar a zero de qualquer posição com um único golpe. Aqui tudo funciona de verdade: aperte os botões, ligue, pare, zere, em câmera lenta, e depois gire o relógio inteiro em três dimensões.
Na primeira parte, a energia saía da mola, atravessava quatro estágios de engrenagens, era liberada em passos pelo escapamento e chegava aos ponteiros. Na segunda, as complicações se empilharam sobre esse relógio: a corda automática, o calendário, a reserva de marcha, a fase da lua, o segundo fuso, o perpétuo. Esta terceira parte é sobre a complicação mais mecânica de todas. O cronógrafo não mostra uma informação que já existe no trem, como a data ou a hora de casa: ele mede um intervalo que começa e termina quando o dono quer, e para isso precisa de um segundo trem, de uma embreagem, de um freio e de um martelo, coordenados por uma única peça de comando.
O calibre desta página é didático, mas não é inventado. A arquitetura segue a do cronógrafo automático mais comum do mundo, o Valjoux 7750 de 1974: 28.800 alternâncias por hora, contador de 30 minutos às 12 horas, contador de 12 horas às 6, pequenos segundos às 9, dia e data às 3. Onde o 7750 usa soluções de fabricação barata (um came estampado e um pinhão oscilante), esta página mostra primeiro a arquitetura clássica, a roda de colunas e a embreagem horizontal, porque nela cada movimento é visível. As variantes do 7750 aparecem lado a lado, para comparação.
| o calibre didático | valor | referência real |
|---|---|---|
| frequência | 28.800 A/h (4 Hz) | 7750, El Primero é 36.000 |
| trem de rodagem | 84/12 · 64/8 · 60/8 · 84/7 · escape de 20 dentes | relações típicas de 4 Hz |
| reserva de marcha | 44 h (6,3 voltas do barrilete) | 7750: 44 a 48 h |
| corda automática | rotor central, redução 1:120, dois reversores | 2824 bidirecional; 7750 unidirecional |
| calendário | anel de 31 dentes internos, estrela de 7, semi-instantâneo | 7750, 2892 |
| comando do cronógrafo | roda de colunas, 8 colunas, 16 dentes | 7750 usa came estampado |
| embreagem | horizontal, roda de embreagem oscilante | 7750 usa pinhão oscilante |
| contadores | 30 min (saltante) · 12 h (arrastado, pelo barrilete) | 7750 |
Um cronógrafo é um segundo trem de engrenagens que se acopla ao primeiro quando você aperta um botão e se separa quando aperta de novo. Três alavancas fazem esse trabalho: a embreagem, que liga e desliga; o freio, que segura o ponteiro parado; e o martelo, que zera. Alguém precisa coordená-las, e na arquitetura clássica esse alguém é a roda de colunas: uma roda dentada com uma coroa de pilares em cima. Cada apertar do botão A a gira meio passo de coluna. As alavancas encostam a ponta nos pilares: quem está sobre um pilar fica erguida; quem cai no vão entre dois pilares desce, empurrada pela própria mola.
Aperte A e siga a ponta de cada alavanca. Aperte B com o cronógrafo em marcha e nada acontece: o martelo está bloqueado por um pilar. É assim que a roda de colunas impõe a regra "não se zera um cronógrafo em marcha".
| alavanca | ponta | efeito |
|---|---|---|
| embreagem | sobre pilar | roda de embreagem afastada |
| freio | no vão | freio apoiado na roda do cronógrafo |
| martelo | no vão | livre para ser empurrado por B |
A roda de segundos do relógio, a que dá uma volta por minuto, carrega uma roda gêmea, a roda de arrasto. Uma terceira roda, a roda de embreagem, está sempre engrenada nela e montada em uma alavanca que gira em torno do mesmo eixo. Quando a ponta da alavanca cai no vão da roda de colunas, a mola empurra a roda de embreagem até ela morder a roda do cronógrafo, no centro do movimento: a partir daí, as duas giram juntas, uma volta por minuto, e o ponteiro central vermelho anda. Ao parar, a embreagem recua e o freio encosta na roda do cronógrafo antes que ela role sozinha.
Repare no instante da partida em câmera lenta. A roda de embreagem chega girando e a roda do cronógrafo está parada, então os dentes raramente se encaixam de primeira: um dente pega no outro e a roda do cronógrafo dá um pulinho para acomodar. É o pequeno salto do ponteiro na partida que os donos de cronógrafos de embreagem horizontal conhecem. A embreagem vertical, moderna, evita isso com discos de atrito, como uma embreagem de carro em miniatura; o pinhão oscilante do 7750 inclina um pinhão de duas coroas em vez de deslocar uma roda.
A roda do cronógrafo leva um dedo na periferia. Uma vez por volta, o dedo passa pelos dentes da roda do contador de minutos, que tem 30 dentes, e empurra um deles: o ponteiro do contador avança 12 graus, um minuto. Um saltador segura a roda entre os avanços, igual ao do calendário. Nos últimos segundos de cada minuto dá para ver o dedo chegando: o ponteiro do contador começa a se mexer aos 57 segundos e completa o salto quando o ponteiro central passa pelo 60.
O contador de 12 horas segue outra lógica no 7750. Em vez de ser puxado pelo contador de minutos, ele é acionado diretamente pelo barrilete, com uma roda que gira sem parar e uma luva de atrito no eixo; um freio próprio o segura quando o cronógrafo está parado e o libera quando está em marcha. É por isso que o ponteiro das horas do cronógrafo se arrasta em vez de saltar.
Como fazer um ponteiro voltar ao zero de qualquer posição, com um único golpe? Com um came em forma de coração preso ao eixo do ponteiro. O coração é feito de duas espirais iguais, espelhadas, que se encontram numa ponta (o raio maior) e num entalhe (o raio menor). Quando uma face plana, o martelo, é empurrada contra o coração, ela encosta primeiro no ponto mais alto do contorno e o empurra para baixo; o coração gira para o lado em que o raio diminui, sempre pelo caminho mais curto, até a face plana assentar no entalhe. Nesse ponto o ponteiro aponta para zero.
Um caracol, com uma espiral só, também voltaria ao zero, mas às vezes pelo caminho longo, quase uma volta inteira. Duas espirais cortam o percurso pela metade. E a espiral não é qualquer uma: nos corações reais ela é logarítmica, mais aberta perto da ponta, para que o torque do martelo caia à medida que o coração se aproxima do entalhe e o ponteiro não passe do zero.
No módulo, um único martelo com duas cabeças cuida dos dois corações ao mesmo tempo: o da roda do cronógrafo e o do contador de minutos. Antes de bater, um ressalto do martelo levanta o freio, para a roda poder girar. O botão B só consegue empurrá-lo com o cronógrafo parado, quando a ponta do martelo está diante de um vão da roda de colunas. Ao soltar o botão, a mola do martelo o recolhe, o freio volta a encostar e os ponteiros ficam presos no zero até a próxima partida.
Este é o movimento inteiro visto pelo fundo da caixa, como se vê por um fundo de vidro. Embaixo, o relógio da primeira parte: barrilete, quatro estágios, escapamento, balanço a 4 Hz. Sobre ele, o módulo do cronógrafo com a roda de colunas, a embreagem, o contador e o martelo. Por cima de tudo, semitransparente, o rotor da corda automática balançando, explicado na segunda parte. O calendário não aparece: ele fica do outro lado, sob o mostrador.
Em velocidade real só o balanço, a roda de escape e o ponteiro central se mexem. Acelere e a cadeia inteira anda; a 3.600× o barrilete dá uma volta a cada sete segundos e a reserva de marcha se esgota em menos de um minuto, a menos que o rotor esteja trabalhando.
Até aqui as peças apareceram de frente, como num diagrama. Este é o mesmo calibre modelado em três dimensões, com as oito camadas que se empilham dentro da caixa: o fundo, o rotor, o módulo do cronógrafo, a platina com o trem e o escapamento, o calendário, o mostrador, os ponteiros e a caixa com o cristal. Gire com o mouse ou com o dedo, aproxime com a rolagem e arraste o controle de explosão para ver as camadas se encaixarem até virar um relógio fechado. Passe o cursor sobre qualquer peça para saber o nome dela; clique numa camada para vê-la sozinha.
O mecanismo também funciona aqui. O balanço oscila, a roda de escape avança meio dente por batida, o rotor balança sobre o rolamento, e os botões A e B ligam, param e zeram o cronógrafo pela roda de colunas. Em velocidade acelerada, os ponteiros correm e o calendário salta à meia-noite.
Um cronógrafo automático com calendário tem cerca de 250 a 300 peças, e nenhuma delas é misteriosa. O módulo do cronógrafo é um segundo trem com uma embreagem, um freio e um martelo, coordenados por uma roda com pilares; o coração é uma espiral dobrada; o contador é um dedo que passa uma vez por volta. A complexidade está nas camadas, não nas peças: as mesmas ideias da primeira parte, empilhadas com cuidado sobre uma platina de trinta milímetros, e é isso que a vista em três dimensões mostra quando as camadas se separam.
Para voltar ao começo da história, a primeira parte mostra a mola, o trem, o escapamento e o balanço, peça por peça; a segunda parte monta as complicações do dia a dia: corda automática, calendário, reserva de marcha, fase da lua, segundo fuso e calendário perpétuo.